“De boas intenções está o inferno cheio”: intenção, impacto e sabedoria no comportamento humano

“De boas intenções está o inferno cheio”: intenção, impacto e sabedoria no comportamento humano

Imagino que estejam familiarizados com o ditado popular “de boas intenções está o inferno cheio” e, apesar de, à primeira vista, parecer uma frase pesada e contraditória, como muitos ditados, pode abrir caminho para uma reflexão mais profunda.

De facto, no que diz respeito às relações interpessoais, ao bem-estar psicológico e ao desenvolvimento e crescimento humano, as intenções por detrás do comportamento são importantes para contextualizarmos e compreendermos esse mesmo comportamento. Porém, este ditado aponta para uma tensão real e importante: a nossa intenção e o que realmente acontece como consequência do nosso comportamento pode ser bastante diferente. Esta diferença é extremamente importante.
Para clarificar esta distinção, quando falamos em intenção referimo-nos ao propósito por detrás das nossas ações, ao que queremos que aconteça como consequência do nosso comportamento. A intenção revela os nossos valores, objetivos e motivações. O comportamento refere-se ao que fazemos objetivamente – à ação observável. As consequências são os efeitos do nosso comportamento, em nós e nos outros, a curto, médio e longo prazo. Todos estes componentes são importantes de serem considerados para potencializar o crescimento psicológico e a saúde relacional. Boas intenções não garantem um comportamento positivo e um comportamento positivo não garante consequências positivas.

Porque é que isto é tão importante se só parece uma questão meramente filosófica? Infelizmente, boas intenções muitas vezes levam a ações danosas. Porquê? E o que podemos fazer para aumentar a probabilidade da nossa intenção ter o impacto desejado?

Por vezes inferimos o que o outro precisa com base no nosso próprio funcionamento. Um exemplo muito comum é oferecermos soluções quando o outro está a sofrer, por imaginarmos que, se estivéssemos no seu lugar, precisávamos de soluções. Porém, a pessoa poderia estar somente à procura de compreensão e conforto. Por muito que queiramos ajudar, por vezes falhamos em compreender a experiência do outro, assumimos e passamos rapidamente para comportamentos de resolução sem a sabedoria necessária para questionar ao outro sobre o que ele realmente precisa. Parece simples, mas em termos relacionais esta diferença de experiência individual e de expectativas pessoais pode causar desalinhamento, levar a invalidação da experiência do outro, a conflitos e a quebras relacionais. (“Não me entendes!” “Mas eu só estava a tentar ajudar”).
Nesta situação podemos juntar a nossa intenção de ajudar à sabedoria da curiosidade e perguntar “Do que precisas agora? Como te posso ajudar?”

Além disso, sabemos que tendemos a explicar o nosso comportamento focando na nossa intenção enquanto que explicamos o comportamento dos outros com base em consequências. Aqui, instala-se uma diferença de perspetiva que pode levar a falhas na comunicação e na resolução de conflitos relacionais. (“O que fizeste magoou-me”, “Mas a minha intenção não era essa”). Quando a nossa intenção não é magoar pode ser difícil assumirmos responsabilidade em relação ao impacto que o nosso comportamento teve, o que pode dificultar a reparação e levar a conflitos. Neste caso, responsabilidade não significa culpa. Podemos tomar responsabilidade sobre as consequências que as nossas ações tiveram sem nos culparmos quanto a elas. Responsabilidade implica aceitarmos que o nosso comportamento, mesmo bem intencionado, pode ter consequências negativas no outro. Por exemplo, se estivermos no comboio e sem querer pisarmos alguém tendemos a pedir imediatamente desculpa. Não porque tivemos a intenção de magoar, nem porque o nosso comportamento foi negativo mas porque causou dano ao outro. Assumimos responsabilidade sem culpa. Aqui, a sabedoria implica estarmos abertos ao feedback e a reparar o dano em vez de defendermos o intuito. “Que ação preserva a relação e os meus valores?”

Por outro lado, também podemos cair na armadilha da mente de focar simplesmente no curto-prazo, em aliviar o sofrimento à nossa frente sem a sabedoria necessária para parar e refletir sobre o impacto a longo prazo que o nosso comportamento pode ter. Por exemplo, dar a uma criança o que ela pede para se acalmar mas ao mesmo tempo estando a ensinar à criança a não tolerar a frustração de não ter o que quer, algo que é extremamente importante para o desenvolvimento saudável da criança e para se tornar num adulto igualmente saudável e capaz de lidar com as adversidades do mundo real. Ou fazer algo pela criança por ser difícil para ela mas ao mesmo tempo estando a impedir que ela desenvolva essa competência ao longo do seu desenvolvimento. E quando falamos em crianças, podemos facilmente alargar este raciocínio a qualquer pessoa significativa na nossa vida. Nem sempre aliviar imediatamente o sofrimento é a ação mais benéfica. Na verdade, raramente o é. Aqui a sabedoria pergunta: “O que genuinamente ajuda a longo prazo? “O que suporta crescimento e aprendizagem e não somente alívio?”

Para terminar, focando no ponto mais essencial – O que transforma uma boa intenção numa ação genuinamente eficaz e benéfica? A sabedoria. E sabedoria não se trata de saber mais — trata-se de ver com clareza e responder com habilidade. Uma ação sábia integra a intenção de ajudar e aliviar o sofrimento com a consciência do contexto, das consequências e da condição e vulnerabilidade humana.

Mas a sabedoria de que falamos aqui não é algo abstrato ou reservado a momentos extraordinários. Ela manifesta-se, sobretudo, nas pequenas escolhas do quotidiano, nas pausas que fazemos – ou não – antes de agir, e na forma como escutamos o impacto do que fazemos nos outros. Assim, talvez o maior desafio não seja termos boas intenções – a maioria de nós tem – mas sim em abrandar o suficiente para nos perguntarmos: O que estou a fazer está, de facto, a ajudar? A quem? E em que horizonte de tempo? Cultivar sabedoria implica aceitar que podemos errar, que nem sempre sabemos o que é melhor para o outro e que aprender com o impacto das nossas ações é parte essencial do crescimento humano – individual e relacional.

Dinis Martins
Dinis Martins
Psicólogo