Quando a Vida perde o Norte
O início de um novo ano costuma despertar em nós a vontade de mudança. Tende a ser também um período de reflexão sobre o que foi o ano anterior: como nos sentimos, como vivemos, os objetivos que alcançamos, o que perdemos, o que foi mais difícil… Já para o novo ano, fazemos planos, definimos objetivos e idealizamos versões mais equilibradas, felizes e realizadas de nós mesmos.
Mas, muitas vezes, o entusiasmo dos primeiros dias de janeiro esmorece e acabamos por nos sentir novamente perdidos, desconectados e envolvidos no ritmo acelerado das obrigações diárias, passando a agir, como habitualmente, em piloto automático.
Frequentemente, acreditamos que só mudanças radicais podem alterar verdadeiramente o rumo da nossa vida — uma nova carreira, um novo emprego, uma nova casa, uma grande conquista, uma mudança de cidade… No entanto, mais importante do que grandes mudanças é a forma como vivemos o nosso dia-a-dia, momento a momento, que impacta o que somos e como nos sentimos. Viver uma vida significativa não depende apenas de grandes transformações, mas sim de identificarmos diariamente quais são os nossos guias orientadores, os nossos valores, e de colocarmos em prática ações consistentes com estes.
Ter clareza sobre os nossos valores significa compreender aquilo que é mais importante para nós, aquilo que queremos cultivar na forma como vivemos, na forma como nos relacionamos (connosco e com os outros) e como cuidamos de nós. Mas a clareza, por si só, não basta. É nas ações, mesmo que pequenas, simples ou imperfeitas, que os valores ganham vida. São as escolhas que fazemos diariamente que nos ajudam na construção de uma vida mais autêntica, intencional e significativa.
Ao contrário de metas e/ou objetivos (que são resultados específicos que pretendemos alcançar), os valores são qualidades contínuas que queremos cultivar na nossa forma de viver. São como bússolas internas: não nos dizem exatamente onde vamos chegar, mas orientam-nos na direção que faz sentido para nós.
Alguns exemplos de valores incluem:
• Compromisso com a família,
• Cuidado com o bem-estar físico e emocional,
• Procura de conhecimento,
• Coragem,
• Autenticidade,
• Gratidão,
• Criatividade,
• Gentileza.
Cada pessoa tem a sua própria constelação de valores, e é justamente essa singularidade que torna cada vida única.
Quando nos afastamos das nossas bússolas internas, podemos sentir um vazio difícil de nomear: uma sensação de estagnação, insatisfação ou desconexão interna. Já quando nos aproximamos dos nossos valores, mesmo que através de ações pequenas, sentimos mais energia, propósito e coerência com a pessoa que queremos ser.
Se não sabe por onde começar, experimente refletir sobre estas perguntas:
Quando penso na pessoa que quero ser, que qualidades me vêm à cabeça?
O que é realmente importante para mim que, por vezes, acabo por adiar ou negligenciar?
Quais são os momentos da minha vida em que me senti verdadeiramente vivo/a, presente e alinhado/a comigo mesmo/a? O que estava presente nesses momentos?
Se alguém que admiro observasse as minhas ações diárias, que valores gostaria que conseguisse identificar nelas?
Não existem respostas certas ou erradas, o essencial é compreender e identificar o que é realmente importante para si.
Posteriormente, tente identificar de que forma pode colocar em ação os seus valores:
• Se valoriza o autocuidado, talvez possa reservar 10 minutos por dia (ou mais) apenas para si, para respirar profundamente ou caminhar ao ar livre;
• Se valoriza a amizade, talvez possa enviar uma mensagem a um amigo/a com o/a qual já não fala há algum tempo;
• Se valoriza a aprendizagem/conhecimento, pondere dedicar 30 minutos à leitura de algo pelo qual tenha interesse;
• Se valoriza coragem, permita-se dizer “não” a algo que o/a sobrecarrega ou a dar o primeiro passo em algo que o/a deixa receoso/a.
Quando as nossas ações refletem aquilo que é mais importante para nós, as dificuldades continuam a existir — fazem parte da experiência humana —, mas enfrentamo-las com outra força, porque sabemos em que direção estamos a caminhar.
Este início de ano pode ser uma oportunidade para não perder o norte, e passar a tomar decisões e a fazer escolhas mais intencionais e alinhadas com aquilo que realmente valoriza. Não se esqueça, uma grande caminhada começa com pequenos passos.
