Quando o sofrimento parece não caber mais na mente e no corpo

Talvez não seja uma novidade dizer-lhe que viver implica, necessariamente, experienciar sofrimento. Esta é a nossa condição enquanto espécie humana.

No entanto, talvez valha a pena mencionar que não são os acontecimentos de vida em si mesmos que nos fazem sofrer, mas o que pensamos sobre eles – como os interpretamos, avaliamos, julgamos, as expectativas que criamos – e a medida em que ficamos “agarrados”, “presos” a esses mesmos pensamentos. Sendo a mente um sistema dinâmico gerador de pensamentos que, reciprocamente, influenciam emoções e comportamentos, importa então estarmos em contacto com a nossa experiência como um todo. Apenas assim poderemos ser capazes de exercer alguma escolha acerca da quantidade de sofrimento que desejamos acrescentar (ou não) ao sofrimento inevitável que há na vida.

Talvez já lhe tenha acontecido, recentemente até, estar de férias num lugar maravilhoso, onde se sentiu tranquilo e relaxado, e pensar “que bom que é estar aqui”, “quem me dera ficar aqui mais tempo”, “e se as férias pudessem ser mais longas?”. É uma tendência da sua mente “agarrar” esta experiência agradável (não sei se acontece consigo, mas a minha mente conta-me muito esta história!). No entanto, tal sensação de bem-estar não pode durar para sempre. Este “agarrar” cria uma divisão entre o que estamos a experienciar no aqui e agora, e o estado de prazer/conforto pelo qual ansiamos. Essa discrepância, geralmente, deixa-nos angustiados ou desconfortáveis, fazendo com que o contacto com o que realmente estamos a viver seja perdido – ou seja, gera-nos sofrimento. Por outro lado, talvez nos pareça natural que tentemos evitar experiências desagradáveis – um tipo de agarrar negativo – a aversão. Esta é outra forma de querer que as coisas sejam diferentes, de não querer que as coisas sejam como são. Por exemplo, eu sinto stress, mas não quero sentir stress, então evito o stress, afasto o stress, distraio-me constantemente… Isto até pode funcionar por alguns minutos, horas e até dias, mas, provavelmente, quanto mais tentamos afastar o stress, mais ele permanece em nós. O mesmo acontece com os nossos pensamentos. Quanto mais tentamos não pensar, afastar os pensamentos, mais eles estão presentes (experimente durante uns segundos, pensar em tudo, exceto numa girafa? Conseguiu? A mente é de facto incrível!).

E o que é que tudo isto tem a ver com o sofrimento que já não tem mais espaço para ocupar em nós?

Talvez o exercício de permitir e aceitar que alguns pensamentos e emoções estejam presentes possa parecer “fácil” – com o passar do tempo, poderá reconhecer que a vida segue, as férias terminam, as rotinas recomeçam ou seja, “deixa ir” o que pensou e sentiu, focando a sua atenção em muitos outros pensamentos e emoções que surgirão no espaço da sua mente e corpo. No entanto, tal não acontece quando os nossos pensamentos, emoções e até comportamentos nos parecem insuportáveis e nos sentimos impotentes para mudar a nossa vida e acreditar num futuro melhor.

De facto, quando ocorre a experiência de uma perda, uma situação de vulnerabilidade, quando nos sentimos um fracasso, sobrecarregados por problemas pessoais ou familiares, sem esperança e sem sentido para a nossa vida, ou até sem saber bem porquê, nos sentimos presos no nosso sofrimento e acreditamos que não existem soluções ou formas de ultrapassar os problemas e preocupações, sentimos que nunca mais seremos felizes, sentimos que, mais do que morrer, não queremos continuar a viver a vida tal como a experienciamos neste momento -parece não haver mais saída para este sufoco. Como se o mar da vida em que se vive – a mente e o corpo – não estivessem a permitir que suba à superfície para respirar e continuar a viver.

Ora, todos nós já pensámos na nossa própria morte. Isso é natural, a morte faz parte da vivência do ser humano. O pensamento aparece, e segue o seu caminho, dando lugar a outro, e outro, e outro… A preocupação surge quando a pessoa fica “agarrada” à história que a sua mente lhe conta, acreditando veemente nela.

Ter pensamentos ou sentimentos suicidas não significa que a pessoa se suicide, mas constituem um facto de risco para que isso aconteça, sendo por isso essencial estar atento aos sinais de alerta em si mesmo, ou nos outros. Procure estar atento à frequência, intensidade e duração com que surgem pensamentos, fantasias e preocupações com a morte, no geral, e com o acabar com a própria vida, em particular.

Por tudo isto, convido-o a observar as histórias que a sua mente lhe conta, a escutar os sinais no seu corpo, a partilhar o seu sofrimento com alguém.

Por fim, deixo-lhe um pequeno convite de como pode olhar para os seus pensamentos de forma diferente: 1) procure observar os seus pensamentos a aparecer e a desaparecer no espaço da sua mente, sem que tenha de os seguir ou fazer o que eles dizem; 2) olhe para os seus pensamentos como acontecimentos mentais e não como factos reais; 3) escreva os seus pensamentos num papel, para que possa olhá-los de uma forma menos emocional e intensa; 4) com pensamentos particularmente difíceis, olhe com uma nova perspetiva, com curiosidade e sem julgamento.

Quem contactar em caso de necessidade?

Referências de apoio:

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_diamundialprevencaosuicidio_documento.pdf

www.prevenirsuicidio.pt

Daniela Fernandes
Daniela Fernandes
Psicóloga Clínica de Adultos